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OpenAI abandona o Sora: o que a empresa está preparando para o futuro da geração de vídeos?

Pessoa em escritório moderno olhando para tela holográfica com videoconferência e logo "Sora".

Em pouco mais de um ano de vida, o Sora virou um peso enorme no caixa da OpenAI: custou uma fortuna para manter e, em troca, trouxe receitas irrisórias. Diante disso, a empresa decidiu encerrar o ciclo: o aplicativo de geração de vídeos vai sair do ar.

Quando a OpenAI apresentou o Sora, em fevereiro de 2024, a reação foi imediata - parecia inacreditável produzir vídeos com aparência quase cinematográfica a partir de um simples prompt. Como um dos primeiros modelos de geração de vídeo disponíveis ao público, o Sora obrigou os concorrentes a acelerar para tentar alcançar a empresa de Sam Altman. Depois, em setembro de 2025, chegou o Sora 2 como um app independente e ainda mais robusto: com falhas da primeira versão corrigidas, os vídeos passaram a vir com uma trilha sonora bastante convincente e um visual mais realista.

Para muitos analistas, a OpenAI tinha nas mãos um produto perto do ideal - e, no outono de 2025, chegou a firmar um acordo com a Disney para permitir o uso de personagens licenciados nos vídeos gerados. Mesmo assim, ontem a empresa puxou o freio de mão sem dar uma explicação pública detalhada, limitando-se a uma nota publicada no X: “Nos despedimos do aplicativo Sora. A todos que criaram com o Sora, compartilharam e construíram uma comunidade ao redor dele: obrigado… Contaremos mais em breve, incluindo o cronograma de desligamento do aplicativo e da API, além das opções para preservar seus trabalhos”. A pergunta inevitável é: por que acabar com tudo de forma tão repentina?

Sora (OpenAI) e a conta que não fechava

De acordo com a Forbes, a OpenAI chegava a gastar US$ 15 milhões por dia para operar o modelo de vídeo - o que pode significar mais de US$ 5 bilhões por ano. Do outro lado da balança, o app teria gerado apenas US$ 1,4 milhão em receita desde o lançamento, com um pico mensal de US$ 540 mil.

O próprio Bill Peebles, responsável pelo Sora na OpenAI, já havia admitido em outubro de 2025 que o modelo de negócios era “totalmente insustentável”. O volume de computação exigido a cada vídeo era tão alto que passava a pressionar a infraestrutura e competia diretamente com recursos necessários para outras equipes dentro da empresa.

Somado a isso, a OpenAI passou a enxergar pouco retorno estratégico: clipes que não agregavam valor real ao negócio não justificavam um gasto dessa magnitude. E o interesse do público também esfriou. Desde o começo de 2026, os downloads vinham caindo mês após mês, com um tombo de 32% em dezembro de 2025 - justamente no período de festas, quando aplicativos normalmente performam melhor. Em outras palavras, oferecer “um estúdio de cinema grátis” para o mundo inteiro começou a parecer uma rota direta para um desastre financeiro, e a empresa decidiu encerrar o que pode ter sido um dos capítulos mais imprudentes de sua história.

Um efeito colateral pouco discutido dessa escala é a pressão operacional: produtos de vídeo generativo são especialmente caros em GPU, armazenamento e largura de banda. Além do custo financeiro, existe o desafio de planejar capacidade e garantir qualidade de serviço sem comprometer outras frentes - algo que, pelo relato de bastidores, já estava acontecendo dentro da OpenAI.

Para quem produziu conteúdo no Sora, o encerramento também levanta questões práticas: prazos para download, formatos de exportação, preservação de projetos e eventuais limitações após o desligamento da API. A mensagem no X sugere que a OpenAI vai divulgar um cronograma e opções de preservação, mas criadores e equipas de marketing tendem a tratar esse tipo de mudança como um risco operacional - e, quando possível, manter backups e versões finais exportadas dos trabalhos mais importantes.

“Limpeza” antes de uma possível abertura de capital?

Ao desligar o Sora, a OpenAI dá sinais de que quer reorganizar o seu portfólio. Havia quem apostasse que o modelo poderia ser absorvido pelo ChatGPT, preservando a base tecnológica do Sora dentro do principal produto da empresa. Sam Altman decidiu o contrário: o aplicativo será encerrado, o acesso para desenvolvedores também, e não há expectativa de retorno.

A companhia também não pretende continuar investindo em vídeo generativo. As equipes que estavam no Sora foram redirecionadas para a divisão de robótica, numa tentativa de concentrar recursos em linhas de pesquisa consideradas prioritárias - com destaque, como sempre, para a construção de uma AGI (inteligência artificial geral), objetivo central na visão de Altman.

Nesse reposicionamento, a OpenAI parece mirar explicitamente a Anthropic. O rival consolidou um império com o chatbot Claude, que teria alcançado US$ 19 bilhões em receita anualizada no início de 2026 - sem vender ao mercado uma ferramenta dedicada para criar imagens ou vídeos. A aposta da Anthropic foi ser indispensável para desenvolvedores e empresas, e o Claude Code virou uma referência como assistente de programação. É exatamente nesse tipo de valor corporativo que a OpenAI quer concentrar energia agora.

Na prática, isso pode significar uma reestruturação profunda: ChatGPT, Codex (o assistente de programação da empresa) e o ChatGPT Atlas (o navegador com IA) poderiam, eventualmente, ser combinados em uma única aplicação. E, com a possibilidade de uma abertura de capital até o fim do ano, a OpenAI sabe o que vem junto: escrutínio total das contas por investidores. Nesse contexto, carregar uma lista de produtos deficitários não ajuda - e o Sora era o ramo pesado demais que precisava ser podado antes de “abrir o livro” para o mercado.

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