A corrida para eletrificar a indústria automotiva está cada vez mais rápida - mas, fora dos holofotes, acontece uma disputa paralela: quem manda, de fato, nas matérias-primas e nos componentes sem os quais os veículos elétricos (VEs) modernos simplesmente não existem.
A dependência incômoda da China na cadeia dos VEs
Nos últimos dez anos, a China consolidou uma posição dominante em quase todas as camadas da cadeia de valor dos carros elétricos. O país fabrica uma fatia enorme dos VEs do mundo, influencia o desenvolvimento de muitos projetos e lidera a produção de baterias por meio de gigantes como a CATL e a BYD.
Ainda mais discreto - e, para muitos, ainda mais estratégico - é o controle exercido por Pequim sobre as terras raras. Esses metais são amplamente usados em motores elétricos de alta performance e sustentam uma parte relevante do boom atual dos VEs.
Hoje, a China concentra algo perto de 90% da indústria de terras raras, do minério ao refino e à exportação. Para montadoras ocidentais, isso significa que um único país pode travar um elo crítico da cadeia de suprimentos.
O domínio chinês sobre as terras raras virou uma ferramenta de pressão, influenciando preços, planos de investimento e até o desenho dos motores.
Restrições recentes de exportação impostas por autoridades chinesas elevaram preços e adicionaram um risco constante de interrupção no fornecimento. Para fabricantes tradicionais - que já lidam com o custo pesado da transição para VEs - surge um problema extra, de natureza estratégica e geopolítica.
O consultor e autor Evangelos Simoudis, que atua com inteligência artificial e mobilidade, sintetizou o sentimento do setor em declarações repercutidas pela Automotive News: reduzir a dependência da China virou “uma prioridade absoluta”, porque Pequim aprendeu a “explorar completamente” essa dependência.
Como as montadoras tentam reduzir o uso de terras raras em motores elétricos
O caminho mais direto para escapar do gargalo das terras raras é simples em teoria: projetar motores que não precisem desses materiais. Na prática, isso exige revisões de arquitetura e novas decisões de engenharia - e várias marcas já começaram a se mover.
Motores de indução: o retorno de uma solução sem ímãs de terras raras
A Renault tem sido uma das vozes mais claras na defesa de motores que dispensam ímãs permanentes com terras raras. A geração atual de seus modelos elétricos adota soluções que eliminam esses materiais, indicando que é possível repensar o conjunto do zero.
Algumas marcas alemãs do segmento premium seguem direção parecida em modelos específicos. O Audi Q6 e-tron e o Mercedes EQC, por exemplo, recorrem a motores de indução, nos quais o campo magnético é gerado por corrente elétrica - e não por ímãs permanentes ricos em terras raras.
A escolha, porém, troca um conjunto de compromissos por outro. Dependendo do cenário de uso, motores de indução podem ser um pouco menos eficientes, mas reduzem a exposição direta a oscilações de oferta e preço das terras raras. Para quem planeja produtos com anos de antecedência, diminuir o risco geopolítico pode compensar uma perda moderada de eficiência.
Ao retirar as terras raras do projeto, o desafio sai da geologia e da geopolítica e vai para a engenharia - área em que as montadoras sentem que têm mais controle.
Motores de rotor bobinado ganham espaço
Outra alternativa é o motor de rotor bobinado, já em desenvolvimento ou em aplicação por marcas como Nissan e BMW. Em vez de ímãs permanentes, esses motores formam o campo magnético por meio de eletroímãs bobinados no rotor.
Essa arquitetura permite ajustar o campo magnético com precisão e elimina a necessidade de ímãs de terras raras dentro do motor. A Nissan já usa essa abordagem no Ariya, e a BMW a emprega no i4, iX e iX3. Na prática, esses carros funcionam como laboratórios sobre rodas para um futuro no qual motores baseados em ímãs tenham um papel menor.
Para engenheiros, o rotor bobinado também traz obstáculos: a fabricação é mais complexa, pode exigir anéis coletores (ou outras técnicas de transferência de corrente) e precisa manter confiabilidade por centenas de milhares de quilômetros. A aposta das montadoras é que escala, aprendizado industrial e maturidade de projeto reduzam custos e consolidem a durabilidade.
Pressão de custos: a realidade que atrapalha a “independência”
Mesmo com o discurso de autonomia em relação a Pequim, o orçamento frequentemente puxa na direção oposta. A Renault ilustra bem essa tensão. O grupo vinha trabalhando com a Valeo em um projeto de motor sem terras raras, mas teria desistido do plano por causa do custo.
No lugar, a fabricante francesa estaria avaliando um fornecedor chinês mais barato. A decisão contraria o objetivo público de reduzir exposição à China, mas evidencia uma verdade dura: as margens em VEs continuam apertadas, e executivos seguem pesando risco geopolítico contra pressão financeira imediata.
A estratégia dos VEs virou um cabo de guerra entre custo, metas climáticas e risco geopolítico.
Enquanto fornecedores chineses conseguirem entregar componentes em grande escala com preços menores, algumas marcas ocidentais terão dificuldade para romper totalmente - mesmo investindo em alternativas.
Reciclagem e novas fontes: a segunda frente contra o risco
Com a demanda por VEs crescendo e projetos de mineração levando anos para amadurecer, a reciclagem começa a ocupar o papel de segundo pilar para reduzir vulnerabilidades.
Reaproveitar motores antigos e fechar o ciclo dos materiais
A sueca Polestar está testando ímãs feitos a partir de motores elétricos reciclados. O princípio é direto: recuperar ímãs e terras raras de motores em fim de vida, reprocessar e reinserir esse material em novos motores.
A Bentley, marca de luxo do Grupo Volkswagen, também está entre as empresas que estudam o uso de ímãs reciclados. Tecnologias mais caras costumam estrear primeiro no topo da pirâmide - e, à medida que o volume cresce, podem se espalhar para segmentos mais acessíveis.
- A reciclagem diminui a dependência de mineração e reduz o risco político.
- Ela reduz a pegada ambiental dos componentes dos VEs.
- Permite “ciclos locais” e regionais para materiais críticos, encurtando cadeias de suprimentos.
O impulso europeu por recursos: Estônia, Canadá e Austrália no mapa das terras raras
Reguladores tentam sustentar o movimento com políticas públicas. O plano RESourceUE, da União Europeia, mira pontos sensíveis da cadeia de terras raras para reduzir a dependência do bloco em relação ao abastecimento chinês.
Até 2030, a estratégia se apoia em três alavancas principais:
| Medida | Parcela-alvo da demanda da União Europeia |
|---|---|
| Extração doméstica | Pelo menos 10% |
| Refino e processamento | 40% |
| Reciclagem | 15% |
Combinadas, essas ações buscam permitir que a produção europeia cubra cerca de 40% das necessidades do bloco até 2030, de acordo com as metas oficiais.
Um projeto concreto está no litoral do Báltico: a canadense Neo Performance Materials planeja iniciar a produção de ímãs em uma planta na Estônia a partir de 2026. A empresa já assinou um acordo de fornecimento com a Bosch, sinalizando que grandes fornecedores de primeira linha procuram alternativas fora da China.
Para abastecer novas fábricas, a Europa mira parcerias com aliados ricos em recursos. Canadá e Austrália aparecem como candidatos naturais, tanto pela geologia quanto pelo alinhamento político. Embora abrir minas e refinarias seja um processo lento e controverso, esses projetos podem reduzir gradualmente a atual participação chinesa, próxima de 90%.
O que muda para motoristas e para o mercado de VEs
Para o consumidor, a disputa por terras raras pode parecer distante - mas ela influencia diretamente o que chega às lojas e quanto custa. A arquitetura do motor afeta autonomia, massa e desempenho. Choques de oferta podem elevar preços finais ou atrasar entregas.
À medida que mais marcas migram para motores de indução ou de rotor bobinado, alguns compradores podem perceber comportamentos diferentes ao dirigir, como variações sutis nas curvas de eficiência ou mudanças na sensação de frenagem regenerativa. Ajustes de software tendem a esconder parte dessas diferenças, mas os compromissos de engenharia continuam lá, por baixo da carroceria.
A volatilidade do preço das terras raras também pode atingir planos de leasing e valores residuais. Se fabricantes anteciparem novas altas de custo, podem incluir prêmios de risco em contratos - ou acelerar a troca para projetos que evitem esses insumos.
Riscos, oportunidades e a próxima fase da transição dos veículos elétricos
Desmontar a dependência das terras raras traz riscos e oportunidades ao mesmo tempo. Novas minas e refinarias levantam dilemas ambientais e sociais, especialmente em regiões que por décadas terceirizaram atividades industriais mais pesadas. Governos terão de equilibrar autonomia estratégica com oposição local e regras ambientais mais rígidas do que as vigentes na China.
Por outro lado, a corrida por motores sem terras raras pode dar vantagem tecnológica a marcas europeias, japonesas e americanas. Se conseguirem entregar VEs eficientes e acessíveis com menor exposição a cadeias frágeis, ganham poder de negociação e maior resiliência a choques políticos.
Esse movimento também abre espaço para novos nichos: startups de reciclagem de motores, especialistas em motores sem ímãs e projetos regionais de refino podem capturar valor nessa reconfiguração - especialmente quem conseguir combinar inovação de engenharia com fornecimento rastreável, confiável e em escala.
Além disso, cresce a pressão por rastreabilidade e comprovação de origem de materiais críticos, com exigências de auditoria, conformidade ambiental e transparência na cadeia. Para as montadoras, isso significa que não basta trocar de fornecedor: será necessário demonstrar, com dados e certificações, que a nova rota de abastecimento é consistente e sustentável.
Na América do Sul, inclusive, o tema começa a ganhar contornos próprios. O Brasil possui potencial geológico para terras raras e uma base industrial relevante, o que pode criar oportunidades futuras em processamento, reciclagem e integração de cadeia - desde que haja investimento, licenciamento ambiental claro e capacidade tecnológica para refino, que é justamente o elo mais difícil.
Por enquanto, dentro dos grandes grupos automotivos, o recado é inequívoco: reduzir a dependência do quase monopólio chinês de terras raras pode levar anos, mas deixou de ser um projeto paralelo e passou a ser prioridade de diretoria - moldando a próxima geração de carros elétricos antes mesmo de chegar à prancheta.
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