Quando eu tinha seis anos, não sei como foi com você, mas a mesada mal dava conta de tanta “despesa fixa”. Entre as figurinhas (que eram “obrigatórias”) dos Cavaleiros do Zodíaco, Push Pops e Peta Zetas, eu ainda precisava separar um dinheiro para o meu maior vício: revistas de automóveis. A obsessão era tão séria que perdi a conta de quantos jogos do Mega Drive deixei de comprar por causa do meu interesse definitivo: carros. E, naquela época, os 10 contos (algo como 50 euros) que custava um cartucho do Mega Drive ainda compravam muitas revistas…
Em uma dessas revistas (sim, eu guardo até hoje), trombei com um Renault Clio Williams. Foi paixão imediata. Não sei explicar exatamente por quê, mas no meio de páginas e páginas com Porsche, Ferrari e companhia, era aquele francês pequeno que me fazia voltar a folhear a revista dezenas, centenas de vezes. Já que entrei no modo “viagem no tempo”, fica a confissão: existem carros pelos quais eu nutri um fascínio enorme sem motivo muito racional - e um deles foi um Nissan Micra (K11) de Troféu.
Do passado ao presente: finalmente ao volante do Renault Clio Williams
Desde moleque eu imaginava como seria dirigir um Renault Clio Williams. A chance apareceu quando eu entreguei o Porsche 911 Carrera 2.7 MFI ao Jorge Nunes, dono da Sportclasse - uma espécie de Mestre Yoda dos Porsche em Portugal. Além de uma coleção de modelos da Porsche que parece não ter fim, o Jorge também guarda na Sportclasse alguns esportivos de outras marcas. Um deles é este “modesto” Renault Clio Williams, frequentemente apontado como um dos melhores hatches esportivos de todos os tempos - e eu queria descobrir se essa fama faz sentido.
Assim que vi o carro parado na porta, ficou combinado: na semana seguinte, o Williams seria “meu” por um dia. Subi para o escritório e já resolvemos ligar para o Autódromo do Estoril para um teste de verdade. Carro: ok. Autódromo: ok. Agora era respirar e tentar manter a cabeça no lugar.
Renault Clio Williams: origem, missão e números do mito
Antes de eu acelerar (ao menos no texto) rumo ao Estoril, vale apresentar o Clio Williams aos leitores mais novos - inclusive quem já nasceu no século XXI.
O Renault Clio Williams chegou em 1993. Ele nasceu com dois objetivos bem claros: primeiro, celebrar as conquistas da Williams Renault na Fórmula 1 com Nigel Mansell (campeão do mundo em 1992); segundo, servir como versão de homologação do Clio para os ralis. Bastariam 2.500 unidades, mas a Renault decidiu ir muito além e produziu 12.100 exemplares do Renault Clio Williams. A decisão não caiu bem entre donos da fase 1, já que a marca teria prometido não passar de 3.800 carros - e acabou fabricando mais que o triplo.
Debaixo do capô, o modelo usa um 2,0 litros 16V com 150 cv, derivado diretamente do bloco 1,8 16V dos modelos “comuns”. Para chegar aos 2,0 litros e aos 150 cv, o motor passou por um trabalho minucioso da Renault Sport para ganhar força e um temperamento mais esportivo - incluindo gosto por giros mais altos. Virabrequim novo, válvulas maiores, distribuição recalibrada, comando de válvulas para maior fluxo, câmbio específico e coletor de escape foram apenas algumas (entre muitas) das mudanças feitas pelos “mágicos” da Renault Sport dedicados a este Clio.
No visual, o que faz a gente perder a linha são a bitola dianteira mais larga e musculosa, a suspensão mais baixa, os adesivos “Williams”, as rodas Speedline douradas e a belíssima cor azul. Por dentro, os detalhes que denunciam a versão estão nos cintos, no carpete, na manopla do câmbio (feia mesmo) e no painel de instrumentos azul. Os bancos com um “W” bordado conseguem ser confortáveis e, ao mesmo tempo, segurar bem o corpo.
Esse pacote transformou o Williams em relação ao Clio “normal” de forma radical, dando origem a um dos melhores carros de tração dianteira de sua era. Dito isso, era hora de ir para o autódromo - finalmente.
Obrigado, São Pedro… só que não
Consegui agendar o teste exatamente em um dos dias mais chuvosos do ano. Que sorte “maravilhosa”. Eu até poderia apelar para o discurso já batido de que “com pista molhada fica mais fácil entender os pontos fortes e fracos do chassi”. Conversa. Tirando as fotos excelentes do Gonçalo Maccario, a ida ao Estoril rendeu menos do que eu queria. Eu preferia ter acelerado no seco - até porque, infelizmente, meu nome é Guilherme Ferreira da Costa, não Ayrton Senna da Silva.
Depois de quatro voltas e alguns subesterços (afinal, é tração dianteira), comecei a me divertir de verdade. A pista deu uma leve secada e a aderência passou de “zero” para “dá para trabalhar”.
Falando do motor: os 150 cv continuam morando sob o capô, parecem saudáveis e prontos para serviço - talvez ajudados pelo fato de este exemplar ter menos de 70.000 km. Com o asfalto molhado, é difícil transferir toda a potência para o chão, e a falta de um diferencial autoblocante aparece principalmente nas curvas mais lentas. Ainda assim, saí do autódromo com bons sinais do que o carro poderia entregar no seco.
E entregou. Depois de “fazer as pazes” com São Pedro, o clima melhorou durante o resto da semana e eu pude dirigir o Renault Clio Williams do jeito que eu queria: com piso seco. Foi ótimo. A base é excelente e a dianteira (mesmo sem o tal diferencial autoblocante) trabalha com precisão em qualquer situação. No ápice da curva, dá para controlar o que acontece com facilidade, e as reações são sempre progressivas. Já o eixo traseiro pede respeito: se as coisas desandarem, convém lembrar que o santo padroeiro dos apuros ao volante - o controle de estabilidade - não faz milagres no Williams… porque ele simplesmente não existe aqui.
No fim das contas, dirigir o Renault Clio Williams é prazer puro. Tanto pelo desempenho do motor quanto pelo acerto do chassi, dá para sentir que é um carro da velha guarda - mas da melhor velha guarda. Ou seja: sem aquelas manhas difíceis de engolir que alguns clássicos impõem. Nas mãos certas, ele ainda consegue dar trabalho a muitos compactos esportivos bem mais novos.
O que o tempo denuncia (e por que isso quase não importa)
Claro que alguns detalhes entregam a idade do projeto. A posição de dirigir, a ergonomia dos comandos e o acabamento interno - que não é dos mais caprichados - mostram que estamos falando de um carro dos anos 1990. Só que, diante do quanto ele é divertido, esses pontos ficam pequenos.
A pergunta de um milhão: ele merece o título de melhor tração dianteira dos anos 1990? Eu não dirigi todos, então não dá para carimbar como verdade absoluta. Mas, sem dúvida, é um candidato fortíssimo. Existem máquinas que envelhecem bem porque já nasceram especiais - e este é um desses casos.
Um ponto que vale acrescentar, olhando com os olhos de hoje, é como o Clio Williams se tornou referência não só por números, mas por receita: leveza, resposta imediata e comunicação clara. Em uma era em que muitos esportivos modernos ficam mais rápidos a cada geração, mas também mais filtrados, ele segue como um lembrete de que “andar rápido” e “sentir” podem ser a mesma coisa.
Para quem pensa em ter um, também é bom lembrar do lado prático: por ser um clássico desejado, originalidade pesa muito. Rodas corretas, interior íntegro, identificação da versão e histórico de manutenção fazem diferença. E como todo esportivo antigo, vale atenção redobrada a itens de desgaste (suspensão, freios, arrefecimento) e a sinais de preparo malfeito - especialmente em carros que podem ter sido usados em track days ou tocadas mais animadas.
Está à venda? O Jorge diz que não…
“Jorge, quanto você quer no Clio?” Ele olhou para o carro e disse que nem tinha certeza se queria vender - e, pelo visto, está nesse dilema há mais de 15 anos.
Além do Jorge, este Clio teve apenas mais um dono. Ele não está perfeito de vitrine, mas está em ótimas condições. E, sinceramente, se estivesse absolutamente impecável, eu talvez tivesse até menos vontade de dirigir. Carro foi feito para ser usado, e seria um desperdício não colocar este na rua do jeito que ele merece. Ele nasceu para ser guiado - e, no que depender de mim, vai continuar cumprindo o motivo pelo qual foi criado.
A parte boa: 24 anos depois, eu confirmo que o moleque de seis anos tinha motivos de sobra para gostar do Williams. A parte ruim: 24 anos depois, eu sigo sem conseguir comprar um - e agora já nem posso usar as figurinhas e as guloseimas como desculpa. E sim, ainda compro revistas, mas gosto de acreditar que, através da Razão Automóvel, gratuita e online, eu ajudo os mais novos apaixonados por carros a economizar um dinheiro. Ao contrário de mim…
Se essa economia virar um fundo para comprar um Williams, melhor ainda.
Nota: mais uma vez, obrigado à Sportclasse por emprestar as chaves de um dos carros da coleção.
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